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	<title>Cátia Kitahara &#187; Et coetera</title>
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		<title>Ano novo &#8211; sou mortal</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Jun 2010 23:57:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cátia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Começando um ano novo novamente. Desta vez iniciando com mudanças, mudanças não tanto ansiadas quanto necessárias. Necessárias&#8230; Sempre me coloquei como espectadora de mim mesma, mas preciso protagonizar, tomar as rédeas, agarrar a vida pelas aspas, como um touro, como dizia o personagem Toríbio de Érico Veríssimo. Essa síndrome de boa moça tem que acabar, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Começando um ano novo novamente. Desta vez iniciando com mudanças, mudanças não tanto ansiadas quanto necessárias. Necessárias&#8230; Sempre me coloquei como espectadora de mim mesma, mas preciso protagonizar, tomar as rédeas, agarrar a vida pelas aspas, como um touro, como dizia o personagem Toríbio de Érico Veríssimo. Essa síndrome de boa moça tem que acabar, o que eu mais quero é perder o juízo, mas sem perder a razão. Sou mortal.</p>
<p>A vida tem me levado, e o ritmo tem sido lento, mas com solavancos, talvez como um carro de boi, devagar, sempre, e socando, socando. Sou mortal.</p>
<p>Sou mortal, sou mortal, sou mortal.</p>
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		<title>Porque sou a favor da legalização do aborto</title>
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		<pubDate>Wed, 12 May 2010 00:52:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cátia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Hoje descobri que o dia do meu aniversário, dia 28 de maio é também o Dia  Internacional de Luta pela Saúde da  Mulher. Haverá o Ato  em defesa das vidas das mulheres: Contra a  CPI do Aborto! na praça João Mendes, Centro de São Paulo capital, às  14h. Por este [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje descobri que o dia do meu aniversário, dia 28 de maio é também o Dia  Internacional de Luta pela Saúde da  Mulher. Haverá o <strong>Ato  em defesa das vidas das mulheres: Contra a  CPI do Aborto! </strong>na praça João Mendes, Centro de São Paulo capital, às  14h. Por este motivo, acho que seria uma boa oportunidade para explicar porque sou a favor da legalização do aborto.<span id="more-280"></span></p>
<blockquote><p>&#8220;Eu vim para que todos tenham vida, que todos tenham vida plenamente&#8221; &#8211; Jo 10,10</p></blockquote>
<p>Sou uma pessoa de forte formação católica. Apesar de não mais acreditar na existência de Deus e de não ser mais uma católica, grande parte dos meus valores vieram desta formação cristã. Os valores que eu respeito são valores cristãos e também valores humanistas: amor ao próximo, não violência, caridade, bondade, perdão, compaixão e respeito à vida.</p>
<p>Este último valor para mim é o maior de todos: o respeito à vida, principalmente o respeito à vida humana. O respeito à vida é o respeito à vida em sua plenitude. Para uma vida ser plena, ela necessita minimamente de condições básicas de sobrevivência, mas também necessita de uma condição tão importante quanto as básicas: dignidade. A dignidade de uma vida reflete a capacidade dela ser respeitada como uma individualidade soberana, desde o seu início até o seu fim. Para uma vida ser plena e digna é preciso que todos seus direitos sejam respeitados e válidos e que o princípio de igualdade seja reconhecido.</p>
<p>Isto colocado, quero afirmar que a legalização do aborto, diferentemente do que muitos querem fazer crer, não vai contra o respeito à vida humana, mas ao seu favor. Para provar esta afirmação basta ler as estatísticas relativas ao aborto clandestino e mortes maternas. O aborto é a terceira causa de mortes maternas no Brasil. Neste contexto é importante que as pessoas entendam corretamente o que é aborto. De acordo com a Organização Mundial da Saúde é considerado aborto o produto da interrupção de uma gravidez quando ocorre até a 22 (vigésima segunda) semana completa de gestação, 154 dias, e com produto da concepção pesando até 500gr. Depois deste período, é considerado parto prematuro</p>
<blockquote><p>&#8220;A César o que é de César&#8221; &#8211; Mc 12, 13-17</p></blockquote>
<p>A legalização do aborto e o aborto em si não são a mesma coisa. A legalização do aborto é reconhecer o direito primordial e soberano da mulher em decidir uma questão que se refere ao seu próprio corpo. Apesar de ser a favor da legalização do aborto, em grande parte dos casos eu seria contra a sua realização, mas nunca deixaria de respeitar o direito da mulher tomar a decisão final e nem me precipitaria em ter uma posição inflexível sobre um assunto tão delicado e que envolve tantas questões e fatores. Esta é uma decisão pessoal, que não cabe a ninguém mais, além da própria mulher, seja governo, partidos ou muito menos ainda religiões. Vivemos em um estado laico, somos livres para professar ou não professar fé no deus que quisermos, portanto, não há religião que possa por direito legislar sobre este tema. Cabe à mulher decidir se quer levar uma gravidez a cabo e ainda se deseja ser mãe. Cabe ao governo proporcionar condições em que a gravidez não ocorra quando não planejada, através de educação sexual, planejamento familiar. Cabe ao governo proporcionar segurança para as mulheres e reprimir a violência contra as mulheres, para que não ocorram estupros e gravidez decorrente de estupros. Cabe ao governo garantir acesso à saúde para a mulher nos casos extremos.</p>
<p>A legalização do aborto também não significa que qualquer aborto será legal, a defesa da legalização do aborto pelas feministas não é  indiscriminada. Ela baseia-se na proposta de projeto de lei que legaliza o aborto no Brasil, resultante do trabalho da Comissão Tripartite, elaborado em 2005, sob coordenação da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SPM). Esta Comissão foi instalada pelo Governo Federal para responder à deliberação da I Conferência Nacional de Políticas para Mulheres (CNPM), deliberação esta que foi reafirmada na II CNPM, eventos que juntos reuniram mais de 200 mil mulheres nos anos de 2004 e 2007.</p>
<p>De acordo com esta proposta, o aborto será legal se realizado sempre por livre decisão da mulher e nas seguintes condições:</p>
<ul>
<li>realizado até a 12ª semana de gestação (quando o feto ainda não possui atividade cerebral);</li>
<li>realizado até a 20ª semana de gravidez, quando a gravidez decorre de violência sexual;</li>
<li>realizado a qualquer momento, em casos de grave risco para a vida da mulher gestante.</li>
</ul>
<p>A legalização do aborto é a prioridade da luta feminista e neste ano de eleições nós mulheres devemos estar atentas sobre o posicionamento dos nossos candidatos a respeito desta questão. Dilma Roussef já declarou em entrevista a <a href="http://www.dilmanaweb.com.br/noticias/entry/nos-fizemos-e-sabemos-como-continuar-a-fazer/">Isto é</a> que aborto é questão de saúde pública, com uma leve tendência para a legalização. Porém no site dela não encontramos nada a respeito, além da íntegra da entrevista para a Isto é. Marina Silva pronunciou em entrevista à <a href="http://revistatpm.uol.com.br/revista/93/paginas-vermelhas/marina-silva.html">TPM</a> que é pessoalmente contra e que acha que deve ser realizado um plebiscito. José Serra não se posiciona a respeito, em <a href="http://www.youtube.com/watch?v=5mkEOAj3ghM">entrevista ao programa CQC</a> apenas disse o óbvio: que o aborto é uma coisa lamentável, triste.</p>
<p>Antes de formar sua opinião a respeito, recomendo que leia e se informe sobre o assunto, que pela gravidade não pode ser tratado com a leviandade de discussões sobre novelas ou futebol.</p>
<p>Leituras recomendadas:</p>
<p><a href="http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/livreto.pdf">20 Anos de Pesquisa sobre o Aborto no Brasil &#8211; Ministério da Saúde (formato pdf)</a></p>
<p><a href="http://www.sof.org.br/_sistema/noticia.php?idNoticia=429">Criminalização é a solução do  problema do aborto no país?</a></p>
<p><a href="http://www.inesc.org.br/biblioteca/textos-e-manifestos/porque-defendemos-a-legalizacao-do-aborto">Porque defendemos a legalização do aborto</a></p>
<p><a href="http://www.inesc.org.br/biblioteca/textos-e-manifestos/pela-vida-das-mulheres-legalizar-o-aborto-no-brasil/">Pela Vida das Mulheres, Legalizar o Aborto no Brasil!</a></p>
<p><a href="http://portal.saude.gov.br/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=22411">Norma técnica humaniza atendimento às mulheres com  complicações de abortamento</a></p>
<p><a href="http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL633197-5598,00-ABORTO+ILEGAL+E+MAIOR+CAUSA+DE+MORTE+MATERNA+EM+CIDADES+PERNAMBUCANAS.html">Aborto ilegal é maior causa de morte materna em  cidades pernambucanas</a></p>
<p><a href="http://www.nominuto.com/noticias/cidades/aborto-e-a-terceira-causa-de-morte-materna-no-brasil/52084/">Aborto é a terceira causa de morte materna no Brasil</a></p>
<p><a href="http://www.guttmacher.org/pubs/IB_AWW-Latin-America.pdf">Facts on Abortion and Unintended Pregnancy in Latin America and the Caribbean</a>( formato pdf em inglês)</p>
<p>Filme recomendado:</p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=eZfkki1meDg">O Aborto dos Outros</a> &#8211; primeira parte do documentário no youtube</p>
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		<title>Recordações de outros Natais</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Dec 2009 23:27:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cátia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Natal prá gente era o ápice da nossa vidinha infantil. Mas prá gente ele começava antes, já no final de outubro. Minha avó organizava uma encenação do presépio, com a netaiada e criançadas dos &#8220;agregados&#8221; da família. Os ensaios começavam bem antes, na catedral de Sant&#8217;Anna. Os netos mais velhos representavam os personagens mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Natal prá gente era o ápice da nossa vidinha infantil. Mas prá gente ele começava antes, já no final de outubro. Minha avó organizava uma encenação do presépio, com a netaiada e criançadas dos &#8220;agregados&#8221; da família. Os ensaios começavam bem antes, na catedral de Sant&#8217;Anna. Os netos mais velhos representavam os personagens mais importantes: José, Maria, os arcanjos Gabriel, do sonho de José e dos pastores de Belém, a Estrela-Guia, Isabel, a prima de Maria e mãe do João Batista, os três reis magos. Os menores eram relegados aos papéis menos importantes: pastores, anjinhos, bichinhos (sim, a vaca, o boizinho e o burrinho eram representados por crianças com máscaras). Com o tempo, minha vó foi ficando velhinha e a tarefa foi assumida pela minha mãe que acrescentou algumas cenas, como a do soldado romano lendo o edital sobre o rescenceamento, a do casal José e Maria procurando uma estalagem em Belém, e a do tirano Herodes consultando os doutores da lei e ordenando a matança dos inocentes.<span id="more-128"></span></p>
<p>Tudo era encenado com vestimentas preparadas pela minha avó ou costureiras. Minha mãe tentava fazer os figurinos mais realistas, no começo os pastores se vestiam com roupas de pastor europeu, meio tirolês, mas minha mãe fez trocar para um pastor mais judeu, de túnica com pano na cabeça amarrado com cordinha. Os homens da lei usavam até uma touquinha, o Herodes, tinha uma coroa de louros e o centurião, um capacete com aquele moicano vermelho. Até um aparato daqueles de incenso para um dos reis Magos carregar tinha. Meu avô também entrava na dança, ele fez a manjedoura, que servia de berço para menino Jesus, fez a estrela guia que uma menina carregava, as coroas dos reis, os baús com os presentes e as asas dos anjos. Ele também inventou uma lanterninha que imitava uma vela com uma pequena lâmpada. Na cena em que o anjo aparece para os pastores, apagavam as luzes e os anjinhos entravam correndo com suas lanterninhas acesas prá cantar o Hosana nas alturas. Além disso, ele era responsável pelo transporte da criançada na sua famigerada Kombi verde abacate. Meu avô sempre teve fama de brabo, de dar tremendas surras nos seus filhos, mas prá mim, meu avô era muito querido e nunca falou duro comigo. Essa participação dele no presépio mostrava também sua disposição para agradar os netos. Outro primo fez as máscaras dos bichinhos e um rebanho de carneiros de madeirite com algodão. As asinhas eram feitas com penas de galinha que minha avó pegava na granja, lavava em água fervente e depois tingia algumas de rosa e outras de azul, algumas ficavam branquinhas mesmo. A casa virava uma verdadeira produção, na mesa da copa o meu avô ficava lá, colando as penas, enquanto minha avó ficava bordando os vestidinhos.</p>
<p>Os ensaios eram uma diversão, geralmente aconteciam à noite. A gente ficava correndo pelos corredores da grande catedral vazia e olhando os vitrais coloridos com imagens de santos e embaixo as dedicatórias, cada um foi patrocinado por uma família graúda de Mogi. Ao lado da entrada havia uma sala onde ficavam as imagens das procissões, a gente ficava fascinada e aterrorizada com a imagem do Senhor morto num esquife.  Ficava pensando se Ele estava mesmo mortinho ali. Tinha também a Nossa Senhora das Dores, com um punhal no peito, e a do Cristo Ressurrecto. Depois corríamos pelo corredor lateral largo que ia dar na capela do Santíssimo. Nesta capela há uma pintura muito linda na parede dos Discípulos de Emaus. A gente ficava lá olhando. Minha avó ficava explicando e contando algumas histórias prá gente, da Bíblia e dos Santos. Na saída geralmente comprávamos uma pipoquinha e às vezes íamos caminhando até a casa da avó, lembro especialmente do cheiro de dama-da-noite, que batia da casa dos vizinhos da frente, Seu Mauro e Dona Dina. As noites eram mornas e a gente passeava. Pelo caminho íamos brincando de se equilibrar na guia da calçada ou de só pisar nas partes brancas.</p>
<p>Como a gente era feliz, meu deus! Além da encenação do presépio tinha também a grande ceia na casa da minha avó, no dia 24. Minha tia sempre chamava a gente prá ajudar a enfeitar a casa e montar o presépio. Depois que o presépio ficava pronto, minha avó fazia a gente rezar em volta. Meu avô tinha feito uma cabaninha de telhado de palha, pedaços de espelho representavam os lagos. A gente adorava ficar lá olhando. Alguns anos, inventaram uma árvore com chocolates pendurados, lembro que uns primos velhos e sem graça avançaram e me deixaram sem nenhum. Eu era &#8220;café-com-leite&#8221; durante uma época, porque era a mais nova de uns vinte netos. Isso significava que eu entrava nas brincadeiras só prá participar, mas não era &#8220;prá valer&#8221;. Minha avó me disse: &#8220;Não liga, boba, depois a vovó te dá uns docinhos&#8221;.</p>
<p>Na noite da ceia, meus avô e tios aumentavam a grande mesa da sala de jantar para comportar todo mundo, e alguns ainda ficavam de pé. Era uma fartura, uma comilança, e só coisa gostosa. A família toda reunida, algumas vezes rolaram alguns arranca rabos memoráveis, mas na minha inocência de criança, não fazia idéia do que acontecia no mundo dos adultos. Mas antes de avançar na comida, minha avó fazia a gente rezar, lia o evangelho, rezava terço e lia uma mensagem escrita por ela especialmente para a ocasião. Geralmente nessa hora o telefone tocava, algum dos filhos, netos ou parentes de fora ligando para tomar a benção dos velhos. Depois um tio fantasiado de Papai Noel vinha distribuir os presentes. Eu morria de medo do Papai Noel, minha mãe diz que meu coraçãozinho disparava na hora de pegar meu presente. No dia seguinte, ainda havia o almoço de Natal. Algumas sobras do dia anterior, mas também pratos especialmente para o dia. Minha sobremesa favorita era o pudim de leite da minha avó, o pudim mais gostoso. Minhas tias se esmeravam na sobremesa, mas eu gostava mesmo era do pudim.</p>
<p>É, é difícil acreditar como tudo muda, como o que era tão certo hoje não passa de lembrança. Natal hoje é só uma correria tremenda, e eu trabalhando, quase nem percebo e de repente já passou dia 24. Saudades&#8230;</p>
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		<title>&#8230;</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Nov 2009 00:27:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cátia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Compreender a vida é uma tarefa inútil, aceitar a morte é uma tarefa quase impossível, mas mais dia menos dia, tudo passa e tudo passará. Dia difícil, de perda, de reflexão. Pensando que amar é quase sobrehumano, como diz a música. Mas é preciso. É preciso parar de buscar em outro lugar o que a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Compreender a vida é uma tarefa inútil, aceitar a morte é uma tarefa quase impossível, mas mais dia menos dia, tudo passa e tudo passará. Dia difícil, de perda, de reflexão. Pensando que amar é quase sobrehumano, como diz a música. Mas é preciso. É preciso parar de buscar em outro lugar o que a gente tem aqui mesmo e aceitar o que a gente tem.</p>
<p>Eu me canso de mim mesma, muito mesmo, mas não posso desistir. Acho que não mereço muita coisa, e ao mesmo tempo acho que eu mereço muito, muito mais. Mas eu sou um leão, eu sou forte, eu choro alto, eu soluço, mas eu continuo. Às vezes, acho que sou como um cavalo enlouquecido, desgovernado e o cavaleiro perdeu as rédeas. Não consigo me controlar e quando eu vejo fui eu mesma, eu novamente, sempre eu. Mas a verdade é que eu sou eu e não me vejo sendo outra, por mais doloroso que isso seja, prá mim e pros outros.</p>
<p>Mas eu tenho estofo, eu tenho dentro de mim, uma pessoa que mesmo tremendo desesperadamente faz o que tem que ser feito, pro bem e pro mal. Isso eu sei de mim. E tem muita gente que na hora salta de lado. Eu sei que assusto os outros, sou de dar medo, pois tenham medo mesmo seus covardes. Porque eu estou aqui inteira, de carne de osso, sou gente de verdade. Não sou uma fantasia, não tapo sol com peneira.</p>
<p>O que eu preciso é focalizar quem eu sou de verdade e buscar meu caminho, estou vivendo muito ao Deus dará, me deixando levar pela corrente, que está a meu favor, mas uma hora vira e eu fico sem nada.</p>
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		<title>O mendigo na chuva</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Oct 2009 01:21:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cátia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Está passando agora na tv aquele filme, Crash, que segue a mesma linha do Babel. Tramas paralelas que se tocam e que falam dos problemas sociais dos nossos tempos: racismo, violência, guerra, etc. Quer dizer, acho que de todos os tempos.
Enfim, isso acabou me lembrando um dia esse ano, em que fui prá São Paulo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Está passando agora na tv aquele filme, Crash, que segue a mesma linha do Babel. Tramas paralelas que se tocam e que falam dos problemas sociais dos nossos tempos: racismo, violência, guerra, etc. Quer dizer, acho que de todos os tempos.<span id="more-121"></span></p>
<p>Enfim, isso acabou me lembrando um dia esse ano, em que fui prá São Paulo fazer várias coisas, entre elas, fui aprovar as camisetas do WordCamp. O lugar era na Vila Olímpia, eu estava no Marechal Deodoro. Já eram quase cinco horas, o lugar fechava às seis. Começou a cair um pé d&#8217;água daqueles. O trânsito estava uma caca, eu estava cansada dentro do ônibus parado. Liguei avisando que estava a caminho, mas que ia atrasar. Concordaram em me esperar. Cheguei no local às seis e quarenta, pingando porque o guarda-chuva não adiantava prá nada diante daquele aguaceiro. Saí de lá, parecia que nunca mais os carros iam se movimentar. Resolvi esperar num café, comer alguma coisa. Quando deu oito horas saí e resolvi voltar prá casa. Cheguei em casa quase meia-noite. Estava um caco, nervosa, cansada, molhada, com frio, moída. Fui caminhando prá casa, pensando &#8220;que merda!&#8221;.</p>
<p>Na rua de casa, quando eu parei prá atravessar, olhei prá baixo e tinha um mendigo deitado no chão, encolhido, molhado, embaixo de um telhadinho, desses de portão. No exato momento em que eu olhei, ele se virou para meu lado e nossos olhares se cruzaram. Meu instinto foi me assustar, ficar com medo. Mas no mesmo instante a sensação se apagou, porque o olhar dele era tão perdido, tão desolado. Eu segui meu caminho e entrei em casa. Mas eu não conseguia parar de pensar naquele homem, deitado no chão, no frio, na chuva, sem ter um lugar prá se abrigar. Eu tomei meu banho, botei pijama e me deitei. Mas o pensamento no coitado, o que se passava naquela mente? Pensei: &#8220;minha avó não iria deixar isso acontecer na porta da casa dela&#8221;. Levantei da cama, peguei uma blusa, um par de meias, um saco plástico, criei coragem e saí na rua e fui levar prá ele, mas ele não estava mais lá.</p>
<p>Entrei em casa e me senti mal. Quanta gente, meu Deus, anda assim perdida pelo mundo, e a gente no conforto da nossa casa? Eu disse acima: &#8220;criei coragem&#8221;. Pois a palavra é justamente essa: coragem. Minha avó tinha coragem, minha avó era boa. Ter bondade é ter coragem.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Vamos</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Jun 2009 23:09:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cátia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ei, vamos andar por aí sem destino, a pé pelo meio da rua, olhando as estrelas, ou a lua, com as mãos nos bolsos, cabelos soltos, cabeça prá trás.
Vamos rir e sorrir e se chover, receber a chuva na cara, se ventar sentir o vento roçando as bochechas, se estiver frio, vamos assoprar e ver [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ei, vamos andar por aí sem destino, a pé pelo meio da rua, olhando as estrelas, ou a lua, com as mãos nos bolsos, cabelos soltos, cabeça prá trás.</p>
<p>Vamos rir e sorrir e se chover, receber a chuva na cara, se ventar sentir o vento roçando as bochechas, se estiver frio, vamos assoprar e ver o vapor. Se estiver calor, vamos andar descalços e com as roupas leves, vamos!<span id="more-80"></span></p>
<p>Vamos de mãos dadas, vamos sem preocupações, sem pensar em mais nada, apenas vamos, vamos conversar sobre tudo, tudo o que está preso aqui dentro, me conte tudo sobre você, vou contar tudo sobre mim, vamos.</p>
<p>Vamos brindar, com cerveja, com vinho, com água, vamos perder os sentidos, caminhando por essa rua de pedras, de terra. Vamos chegar até o mar e olhar pro horizonte, vamos ver os navios, vamos caminhar na areia dessa praia sem fim, dizem que ela é uma estrada, vamos parar e pegar as conchas, vamos atirar uma concha no mar. Vamos tentar encaixar nossos pés nas pegadas dos outros. Vamos fazer barulho com os pés na areia fininha, branquinha. Vamos apostar uma corrida, um dois três, vamos.</p>
<p>Vamos, me conta porque você gosta de frio, eu te conto porque gosto de calor. Vamos parar e dançar um pouco, adoro sambar, vamos cantar bem alto até a gargantar arder aquela música dos beatles, ou aquela música de quando éramos crianças, vamos pular e chacoalhar a cabeça, os cabelos. Vamos desembaraçar meu cabelo, eu sento e você paciente desmancha os nós e vai me contando sua história, eu conto a minha. Conto quantos tios e tias eu tenho, e primos, tenho muitos, sabia? Conto histórias da família, conto meus livros preferidos, li muitos, leio muitos, amos meus livros, meu livro preferido? Adoro o Tempo e o Vento, gosto do Miguelin, ah o Miguelin! Grande sertão, lígia, o gato malhado e a andorinha sinhá, tão triste, amor impossível. Minha música? águas de março, lembrei do meu avô agora, das suas mãos grandes e do chocolate de moeda da lacta que ele me deu. Vinha num tubinho.</p>
<p>Vamos, estou ouvindo uma cantora da Islândia, que nem a Bjork, ela também tem aquela voz de criança, mas não se esgoela que nem ela. Chama emiliana torrini, tem umas letras muito bonitas, tão meigas. Me ajudaram nesse sansara que está minha vida. &#8220;hear the leaves applaud the wind&#8221;, tão lindo.</p>
<p>Vamos estou tão cansada, me dói ver meu pai tremer, vamos, vamos, vamos, vamos. Vamos&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</p>
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		<title>A Entrada dos Palmitos</title>
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		<pubDate>Sat, 23 May 2009 01:18:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cátia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mais uma Festa do Divino de Mogi das Cruzes se aproxima. Essa festa faz parte da minha vida desde criança. Fiquei pensando aqui comigo que seria um bom mote para desenvolver uma crônica, ou um conto, ou até mesmo uma história de ficção para crianças, o meu sonhado livrinho ilustrado. Segue então, meu primeiro esboço, em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Mais uma <a href="http://www.festadodivino.org.br" target="_blank">Festa do Divino de Mogi das Cruzes</a> se aproxima<a href="http://www.seuestrelo.art.br/" target="_blank"></a>. Essa festa faz parte da minha vida desde criança. Fiquei pensando aqui comigo que seria um bom mote para desenvolver uma crônica, ou um conto, ou até mesmo uma história de ficção para crianças, o meu sonhado livrinho ilustrado. Segue então, meu primeiro esboço, em forma de crônica, falando especialmente sobre a </em><em> <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=13" target="_blank">Entrada dos Palmitos</a></em><em>.</em><span id="more-61"></span></p>
<h3>Entrada dos Palmitos</h3>
<p>- Filha, vai ver se eles já estão vindo!</p>
<p>- Não vó, tão lá em cima ainda.</p>
<p>- Ih, estão atrasados. Ano passado, a essa hora já estavam aqui em frente. Mas então pega essa toalhinha vermelha e coloca no murinho. Depois atravessa a rua e pede prá D. Dina se ela tem umas flores vermelhas prá pôr no vasinho.</p>
<p>- Tá bom, vó.</p>
<p>Era assim. Sábado de manhã, véspera de <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=3" target="_blank">Pentecostes</a>, na casa da minha avó. Um corre-corre e um vai-e-vem da varanda prá dentro da casa, enfeitando a frente prá passagem do cortejo da Entrada dos Palmitos. A Tia Mi montando um altarzinho, ia orquestrando a sobrinhada, que corria pegar ora uma tesoura, ora uma cola, um pedaço de fita crepe, fitas coloridas nas <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=7#cores" target="_blank">cores dos sete dons</a>. Tudo muito vermelho com dourado e prata, as cores do Divino. Minha avó, velhinha, toda bondade e doçura acompanhando os preparativos com o olhar aprovador.</p>
<p>- Agora pega a <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=7#pomba" target="_self">imagem do Divino</a> com cuidado.</p>
<p>- Isso! Pronto! Que lindo que ficou!</p>
<p>Os meus tios e tias vinham acompanhar a Entrada da casa de minha avó.</p>
<p>- Estou com a casa cheia &#8211; Dizia ela. Também pudera, onze filhos, mais genros, noras e vinte e nove netos. Sem falar nos &#8220;agregados&#8221;, primos de todo lado. Nem todos compareciam, mas só uma parte desse povo todo já era suficiente para encher a casa.</p>
<p>- Mãe, a quermesse ontem estava fervendo. &#8211; conta uma das minhas tias, que chegava esbaforida da rua.</p>
<p>- Acabei de passar no <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=7#imperio" target="_blank">Império</a>, está lindo. A sua bandeira está lá, Mi, cheia de nozinhos nas fitas.</p>
<p>- Você foi na <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=11" target="_blank">alvorada</a>? &#8211; pergunta outra tia.</p>
<p>- Não, mas ontem fui na <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=11" target="_blank">passeata</a>. Fomos na casa daquela senhora doente, coitada. Rezamos prá saúde dela. As filhas serviram cada bolo gostoso! E a <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=16" target="_blank">Folia do Divino</a>, tocou que foi uma beleza.</p>
<p>- Ah, os violeiros.</p>
<p>Som de fogos pipocando ao longe. Já se ouvem os sons das patas de cavalo batendo no paralelepípedo, o estalar de chicotes e o barulho de carroças e charretes. É o povo que vem das redondezas, da zona rural da região, para participar da Entrada.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-64" title="Povo da zona rural -foto Diego Padgurschi" src="http://www.catiakitahara.com.br/wp-content/uploads/2008/10/divino_05.jpg" alt="" width="422" height="281" /></p>
<p>O sol, como sempre, presente, num céu azulão de maio, com poucas nuvens, irradiando um calorzinho bom nesse começo de inverno. Ele não falha, nunca vi Entrada dos Palmitos sem sol, pode chover na <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=14" target="_blank">procissão</a>, mas na Entrada, não. Parece que ele sabe e também quer participar da festa.</p>
<p>O burburinho já se sente pela cidade, acompanhado do cheiro de curral que se espalha pelas ruas onde os cavaleiros passaram. O trânsito interrompido nas ruas principais provoca um pequeno congestionamento, contrastando com o clima de cidade do interior que se instala no ar. As ruas já estão enfeitadas com mudas de palmitos. Pinceladas de vermelho já se nota, aqui e ali, nas vestimentas, como o lenço no pescoço daquele senhor que vai correndo, segurando seu chapéu de feltro, decerto atrasado pro desfile.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-65" title="Concentração da Entrada dos Palmitos - foto Diego Padgurschi" src="http://www.catiakitahara.com.br/wp-content/uploads/2008/10/divino_03.jpg" alt="" width="290" height="446" /></p>
<p>O cortejo sempre se concentra em frente à capela de Santa Cruz de onde sai, descendo a rua Dr. Ricardo Vilela, a rua da casa de minha avó. O som surdo das batucadas dos grupos folclóricos vem num crescendo, criando uma expectativa no ar. Meu coraçãozinho ia acelerando de excitação, num misto de medo e fascinação, batendo no mesmo compasso dos batuques. Duncudugudum, duncudugudum, duncudugudum. O barulho agudo e monótono das rodas dos carros de bois se aproximava, nhéééééééé.</p>
<p>- Vó, vem prá cá, eles estão chegando! &#8211; A gente gritava prá dentro da casa. Ela vinha sempre enxugando as mãos no avental, sinal de que estava na cozinha preparando alguma coisa gostosa prá gente.</p>
<p>- Menina, desce desse muro. Se você cai, quero ver só. &#8211; Minha tia sempre ralhando comigo.</p>
<p>- Mas a Cíntia subiu, eu também quero ver.</p>
<p>- Sua irmã é maior que você, me obedece e desce já daí. Eu vou chamar sua mãe.</p>
<p>- Vó, deixa eu ficar aqui também?</p>
<p>Ela sorria e ficava atrás de mim, me protegendo.</p>
<p>- Na hora em que os cavalos e os bois passam você fica com medo e foge, bobona. &#8211; Minha irmã me provocando. A netaiada disputava os melhores lugares na mureta prá poder ver melhor o desfile. Os mais velhos se espalhavam pela varanda.</p>
<p>Um cavaleiro para em nossa frente e toca o berrante, todo contente por ter uma oportunidade de se exibir. O povo aplaude. Minha avó manda um beijo, meu avô faz troça com ela: &#8220;O Gerarda, o moço deve tá achando: ô véia assanhada!&#8221; A gente ria, que felicidade, que festa. As crianças sempre tapando os ouvidos com as mãozinhas a cada estouro de mais um fogo de artifício. E lá vinham os bois, os carros de bois, e carroças, e charretes, todos enfeitados com palminhas e flores vermelhas.</p>
<p>- Pega um copo e enche a jarra com água prá distribuir pros moços que estão tocando os bois. &#8211; Minha avó, sempre preocupada com os outros.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-63" title="Congada de Sta. Efigênia" src="http://www.catiakitahara.com.br/wp-content/uploads/2008/10/divino_02.jpg" alt="" width="348" height="520" /></p>
<p>Som de sanfonas e batuques, são os grupos folclóricos, com sua animação e colorido. Marujada de Nossa Senhora do Rosário, azul, Congada de São Benedito, branco, detalhes azul e vermelho, Congada de Santa Efigênia, verde, Moçambique São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, amarelo e vermelho. Fico com inveja do molequinho com seu chapéu de marujo, com fitas coloridas dançando a congada</p>
<p>- Amanhã você sai de anjinho, e no fim você ganha o cartucho. &#8211; Me lembra minha avó. Domingo é o dia da procissão. As crianças que saíam de anjinho ganhavam um cartucho, um cone de papelão enfeitado com franja de papel vermelho e com doces dentro.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-66" title="Grupo Folclórico - foto Diego Padgurschi" src="http://www.catiakitahara.com.br/wp-content/uploads/2008/10/divino_04.jpg" alt="" width="422" height="279" /></p>
<p>Meus tios passam na correria ajudando na organização. Mas páram prá tomar a benção dos pais.</p>
<p>-A bença, pai, a bença mãe.</p>
<p>- Deus te abençoe, meu filho.</p>
<p>-Tão gostando?</p>
<p>-Tá bonito, meu filho. Muito bonito.</p>
<p>-Mas aquela <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=18" target="_blank">cavalhada</a> de Guararema não vem mais. Meeerrrrrrrda!</p>
<p>-Não faz mal, meu filho, tá bom assim.</p>
<p>Em seguida vinha a Banda Santa Cecília, na frente dos guardinhas do exército. Depois o menino vestido de <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=8#imperador" target="_blank">Imperador do Divino</a> à frente dos <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=8#festeiros" target="_blank">festeiros</a>, <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=8#capitao" target="_blank">capitães-do-mastro</a> e as autoridades. E como sempre, atrás, o povão, a massa.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-62" title="Devota do Divino - foto Diego Padgurschi" src="http://www.catiakitahara.com.br/wp-content/uploads/2008/10/divino_01.jpg" alt="" width="422" height="279" /></p>
<p>- Assim como os treis reis <em>magros</em>&#8230;- As rezadeiras e os fiéis com suas bandeiras passam cantando a Bandeira do Divino. Minha avó se emociona e já começa a chorar.</p>
<p>-Já tá chorando, mamãe? -pergunta uma das tias.</p>
<p>Ela assenava que sim com a cabeça limpando o nariz com um lenço, e virava as mãos, como a dizer: &#8220;o que que eu posso fazer?&#8221; Me emociono também e tento disfarçar.</p>
<p>- Bom deixa eu ir, que ainda vou ajudar a servir o <a href="http://www.festadodivino.org.br/site/?page_id=19" target="_blank">afogadão</a>. O povão já tá fazendo fila. Também,  de graça! &#8211; E lá se ia outra tia.</p>
<p>- Vai, filha, vai com Deus e o Divino.</p>
<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</p>
<p>Hoje meus avós já morreram e isso tudo ficou prá trás. A casa foi vendida e é uma escolinha infantil. A Festa cresceu muito e já não é mais o que era antes. O podres poderes sempre estragam tudo o que tocam. E eu nem acredito mais em Deus ou no Divino. Quando é dia de Entrada dos Palmitos a gente, da família sempre comparece, mas fica meio perdida, espalhada ao longo do cortejo, sem uma referência. E quando eu ouço o som das batucadas dos grupos folclóricos, ou vejo o povo simples, sofredor, mas cheio de fé, rezando, cantando, não consigo evitar. Dá um aperto no coração, os olhos ficam marejados. O que que eu posso fazer, vó?</p>
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		<title>O que tu sonhares</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Feb 2009 00:47:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cátia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Inverno de 2006, viajando de carro pela Great Ocean Road, estado de Victoria, Austrália. Um frio medonho de 5°C, vento e chuva, mas com um pouco de sol entre as nuvens. Paisagem maravilhosa, mar bravo, ondas enormes e perfeitas. Tão perfeitas que alguns surfistas malucos enfrentavam o mau tempo e se aventuravam por elas.

Pela janela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Inverno de 2006, viajando de carro pela Great Ocean Road, estado de Victoria, Austrália. Um frio medonho de 5°C, vento e chuva, mas com um pouco de sol entre as nuvens. Paisagem maravilhosa, mar bravo, ondas enormes e perfeitas. Tão perfeitas que alguns surfistas malucos enfrentavam o mau tempo e se aventuravam por elas.<span id="more-71"></span></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-72" title="Vista do mar ao longo da Great Ocean Road" src="http://www.catiakitahara.com.br/wp-content/uploads/2009/02/great-ocean-road.jpg" alt="Vista do mar ao longo da Great Ocean Road" width="422" height="317" /></p>
<p>Pela janela eu ia observando fascinada suas manobras, quando flagrei um deles entrando na ducha. Foi um desses flashs que a nossa mente captura e fixa na memória com riqueza de detalhes, embora tenha sido tão rápido. Foi como num filme, uma cena em câmera lenta proposital para intensificar a atmosfera. Provavelmente ele tinha acabado de sair do mar. Só o vi de costas, no exato momento em que ele puxava o zíper de sua roupa preta inteiriça de neoprene, deixando à mostra uma enorme tatuagem tribal, que ia de ombro a ombro. Acho que foi uma das visões mais sensuais de que me lembro. Pelo cabelo preto, cor da pele, tatuagem e corpaço de jogador de <em>rugby</em>, deduzi que ele era um maori, um <em>Kiwi Boy</em>, como eles chamam. Pronto, foi o suficiente para alimentar minha imaginação.</p>
<p><img class="alignnone size-medium wp-image-73" title="Surfista em praia Australiana" src="http://www.catiakitahara.com.br/wp-content/uploads/2009/02/surfer.jpg" alt="Surfista em praia Australiana" width="422" height="317" /></p>
<p>Sempre tive tesão em ver surfistas no mar. A combinação de água, corpo bonito, coragem e habilidade acende minha libido. É claro que, geralmente, se eles abrem a boca, toda a fantasia evapora. Ainda bem que fantasia não precisa de palavras. Mas foi uma coisa tão bonita, que se eu fosse poeta escrevia uma poesia prá ele. Como não sou, vou me valer do talento do Caetano Veloso e dedicar esse trecho de canção prá você, Kiwi Boy dos meus sonhos:</p>
<blockquote><p>O Havaí seja aqui</p>
<p>O que tu sonhares</p>
<p>Todos os lugares</p>
<p>As ondas dos mares</p>
<p>Pois quando eu te vejo eu desejo teu desejo</p>
<p>&#8230;Tome esta canção como um beijo.</p></blockquote>
<p>(trecho de Menino do Rio &#8211; Caetano Veloso)</p>
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		<title>Primeiro post do ano</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Jan 2009 00:13:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cátia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Faz tempo que não ando por aqui. Muitas coisas acontecendo. Meu envolvimento com a Comunidade WordPress-BR aumentou depois que Matt Mullenweg, o criador da ferramenta, veio ao Brasil. Conheci pessoas muito bacanas por conta disso, mas meus planos de me dedicar às ilustrações foi prás cucuias. Acho que nunca vou encontrar a paz necessária prá [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Faz tempo que não ando por aqui. Muitas coisas acontecendo. Meu envolvimento com a Comunidade WordPress-BR aumentou depois que Matt Mullenweg, o criador da ferramenta, veio ao Brasil. Conheci pessoas muito bacanas por conta disso, mas meus planos de me dedicar às ilustrações foi prás cucuias. Acho que nunca vou encontrar a paz necessária prá me dedicar somente a isso. E em busca de paz mudei-me provisoriamente para Caraguatatuba. Depois de um final de ano conturbado e tristíssimo. Se o tédio e o provincianismo dessa roça caiçara não me vencerem, ficarei por aqui pelo menos durante o primeiro semestre desse ano.<span id="more-69"></span></p>
<p>Poder ir à praia e entrar no mar é uma coisa muito boa. Posso dizer que nesses momentos sou feliz. O azul, a água, as montanhas, o verde me trazem paz, me dá tanta felicidade, tanta. Poder sair na rua de chinelo e shorts ou de biquini também é muito bom. E mesmo a chuva é bom de ouvir (e como tem chovido!), de sentir. Tomei um torózão outro dia, como é bom, não me esconder, não me preocupar se está molhando ou não. Ô chuva boa! Ficar com a janela aberta até tarde, é bom também. Sentir a brisa fresca que vem do mar. Ou ver os raios caindo lá longe e iluminando o céu todo. Ver o morro da varanda. Fazer nada, muito nada. Ouvir música boa &#8211; agora estou ouvindo a Souad Massi, cantora algeriana. Não posso reclamar, nem tudo está bom, mas não está ruim de todo.</p>
<p>Em Caraguatatuba acho que passei alguns dos dias mais felizes da minha vida. Na casa da minha avó Geralda, queridíssima, amadíssima, venerada e insubistituível. Mãe de ternura, doçura e bondade como nunca encontrei ninguém nessa vida. Ah, vó, onde está a casa rosa? A mangueira, o coqueiro, as goiabeiras branca e vermelha, o chapéu de sol, suas plantinhas, a hortinha da dona Odete? A dona Odete, Seu Mané e Adriana? Onde está o quartão, o quarto das moças, a garagem, a cozinha, a sala, seu quarto, com a porta semi-aberta e sempre uma luzinha acesa? Cheiro de cânfora. O corredor do lado de fora, a Kombi verde, as varas de pesca, os pedaços de prancha de isopor quebradas, as coleções de Readers Digest, &#8220;O Mameluco&#8221;, seus recadinhos, a enchente, as noites de carteado, a casa cheia, a foto da família, a estrela-do-mar na parede, as cortinas de chita, a muretinha, a ciranda à noite, o poste de luz, a rua de terra, de lama&#8230;</p>
<p>Saudades&#8230;</p>
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		<title>Minhas Heroínas &#8211; Katherine Mansfield</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Oct 2008 21:44:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cátia</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Depois que eu publiquei o post anterior, começaram a aparecer na publicidade do Google uns anúncios de rehab. Eu demorei um pouco prá sacar porque, mas depois de matutar um pouquinho percebi que era por causa da palavra heroína no título do post. Dei umas boas risadas e decidi remover aquele coisa daqui, não sei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois que eu publiquei o post anterior, começaram a aparecer na publicidade do Google uns anúncios de rehab. Eu demorei um pouco prá sacar porque, mas depois de matutar um pouquinho percebi que era por causa da palavra heroína no título do post. Dei umas boas risadas e decidi remover aquele coisa daqui, não sei se é incompetência minha em administrá-la, mas como a audiência aqui é nula, não tinha sentido mais manter aquele mico com anúncios absurdos. De agora em diante, só vou colocar banners para campanhas e causas que apóio. Fica mais honesto. Dito isso e sem o risco de encaminhar meus leitores (?) para uma reabilitação, vou falar sobre mais uma das minhas heroínas: Katherine Mansfield.<span id="more-58"></span></p>
<h3>Katherine Mansfield</h3>
<p><img class="aligncenter size-medium wp-image-59" title="Katherine Mansfield" src="http://www.catiakitahara.com.br/wp-content/uploads/2008/10/km_01.jpg" alt="" width="279" height="449" /></p>
<p>O primeiro livro de Katherine que li foi Felicidade e outros contos, da editora Revan, comprado em uma liquidação de livros da única livraria que existia no centro de Mogi e que iria fechar suas portas. Os livros estavam quase sendo dados, amontoados sobre uma mesa, sem nenhuma ordem ou critério, vendidos a cinco reais ou menos. Os preços me atraíram e comecei a revirar a montoeira de livros para ver se encontrava alguma coisa decente no meio de vários livros espíritas e de auto-ajuda. Dei sorte, além do livro de Katherine, achei uma biografia de Clarice Lispector, Clarice &#8211; Uma vida que se conta de Nádia Battella Gotlib, recheada de fotos e trechos de cartas, e a Trilogia Tebana de Sófocles, livro que reune as peças Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona (geralmente não seria o tipo de escolha que eu faria, mas por aquele preço, achei que o Sófocles, coitado, merecia ser resgatado daquela companhia indigna e vir morar em minha estante em companhia mais agradável). Na época não conhecia Katherine, fui atraída pela capa, que mostra a gravura de uma cena belle époque, uma mulher dentro de um bonde. Dei uma olhada no interior e na contra-capa. As referências eram ótimas e havia a seguinte frase atribuída à Virginia Woolf: &#8220;eu tinha ciúme do que ela escrevia&#8221;, que acabou me convencendo.</p>
<p>Katherine nasceu em 14 de outubro de 1888, em Wellington, na Nova Zelândia. Aos quinze anos mudou-se para a Inglaterra para estudar. Quando completou dezoito anos voltou para Wellington e se iniciou na literatura. Aos vinte conseguiu que seu pai, muito rico, bancasse seu retorno à Londres, nunca mais retornando à Nova Zelândia.</p>
<p>De volta à Londres, entregou-se a uma vida boêmia e bissexual. Inexplicavelmente, casou-se e separou-se de seu professor de canto George Charles Bowden no mesmo dia, apesar de já estar grávida de Garnet Trowell, irmão de um amigo. Essa notícia fez sua mãe levá-la até a Alemanha, onde ela sofreu um aborto e começou a apresentar os primeiros sintomas de uma tuberculose, que mais tarde a matou ainda muito jovem, com apenas trinta e quatro anos.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-60" title="Katherine Mansfield e John Murry" src="http://www.catiakitahara.com.br/wp-content/uploads/2008/10/km_02.jpg" alt="" /></p>
<p>Foi amiga de outros grande escritores, como D. H. Lawrence e Virginia Woolf, num período em que sofreu de depressão depois da morte de seu irmão mais novo na Primeira Guerra Mundial. Escreveu vários contos e poemas, a maioria só foi publicada após sua morte pelo seu marido, John Murry.</p>
<p>Os temas de seus contos são aparentemente corriqueiros, um canário, lembranças da infância, mas a sua sensibilidade para a situação submissa e inferiorizada da mulher perante à sociedade refletem a sua indignação e seu posicionamento feminista e à frente de seu tempo.</p>
<p>O conto Bliss (Felicidade) relata como em um mesmo dia a personagem central desperta da frivolidade de sua vida, de aparente felicidade, ao descobrir sua própria sexualidade e a traição de seu marido. Finalizado com a pergunta da personagem: &#8220;E agora, o que vai acontecer?&#8221;, Katherine nos deixa livres para decidir o final, porém deixa a sensação que a solução é apenas uma: a liberação feminina.</p>
<h3>Citações de Katherine</h3>
<blockquote><p>Risque, risque qualquer coisa! Não se importe mais com as opiniões dos outros, com suas vozes. Faça a coisa mais difícil no mundo para você. Aja por si mesmo. Encare a verdade.</p></blockquote>
<blockquote><p>Se nós pudéssemos mudar nossa atitude, nós não apenas veríamos a vida de forma  diferente, mas a própria vida se tornaria diferente.</p>
<p>Eu quero ao entender eu mesma, entender os outros. Eu quero ser tudo que sou capaz de me tornar.</p></blockquote>
<h3>Fontes bibliográficas</h3>
<p>Katherine Mansfield, Felicidade e outros contos (Editora Revan, 1991) &#8211; nota biográfica.<br />
<a href="http://www.cosacnaify.com.br/loja/detalhes.asp?codigo_produto=610" target="_blank">Katherine Mansfield, Contos (editora Cosac Naify, 2005) &#8211; apêndice</a>.<br />
Adriana de Freitas Gomes, Uma Leitura de “Bliss”, de Katherine Mansfield – “A Vida como Origem” (<a href="http://www.criticaecompanhia.com/" target="_blank">http://www.criticaecompanhia.com</a>).</p>
<h3>Textos de Katherine na internet</h3>
<p><a href="http://www.nzetc.org/tm/scholarly/name-208662.html" target="_blank">New Zealand Eletronic Text Center</a></p>
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